Entrevista

Uma conversa com o Patrono da 46ª Feira do Livro, Péricles Gonçalves

No ano do cinquentenário da FURG, o professor que completa 50 anos de docência e participou da criação da Feira do Livro conta de sua trajetória

Foto: Daniel Correa/Secom

Completando cinquenta anos de universidade no mesmo ano em que a FURG comemora seu cinquentenário, o professor rio-grandino Péricles Antonio Fernandes Gonçalves acompanha a Feira do Livro da FURG desde o início, em 1979, quando atuava como superintendente de extensão. Péricles é o patrono da 46ª Feira do Livro e nesta entrevista ele conta de sua relação afetuosa com o evento.

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1. O senhor é membro titular da Academia Rio-grandina de Letras. Qual a sua relação com a literatura, com a leitura e a escrita? 

Sempre me preocupei muito com a produção de artigos sobre assuntos pontuais e os publiquei nas coletâneas da própria academia. Ainda tenho muita coisa por publicar.Um exemplo é o artigo intitulado “Os Primórdios da Extensão na FURG e a História da Feira do Livro” . Também escrevi artigos sobre os nossos principais rio-grandinos, Marcílio Dias, sobre a Batalha do Riachuelo. Como fui professor de história tenho muita atenção a esses fatos. Já na sala de aula, como professor de Direito Constitucional, procuro não restringir os meus alunos a leitura deste ou daquele livro, eu não sou favorável ao livro-texto. Acho que em uma universidade o livro-texto bitola, já que faz com que o aluno leia o que o professor quer. Penso que o aluno não tem que ler o autor que o professor gosta, o aluno tem que ler o autor que melhor lhe explica. Dentro da universidade não pode haver consenso, precisamos induzir as pessoas a saberem que há quem pense diferente sobre aquele tema. Como professor, preciso apresentar a eles as ideias existentes e aquela que melhor lhes convêm, eles devem abraçar.

2. Entre seus artigos há abordagens sobre educação, direito e um em especial cujo título é “Os Primórdios da Extensão na FURG e a História da Feira do Livro”, de 2011. Tem como o senhor nos falar um pouco dessa publicação e a sua importância para a comunidade rio-grandina?

Precisávamos de algo que marcasse o inicio da extensão na FURG. Quando comecei a participar do Núcleo de Memória da FURG (Nume) notei que faltou uma preocupação em deixar fixado o que ocorreu. Como a trajetória da Feira do Livro eu conheço bem, pois vivenciei os primeiros passos, achei que isso deveria ficar escrito. Inclusive, da feira existem duas versões de meus artigos, “Os primeiros passos de um grande evento”, que complementei com “Os Primórdios da Extensão na FURG e a História da Feira do Livro”. Minha preocupação foi contar o que não foi contado, o que havia eram jornais esparsos que se referiam aos momentos da feira e não o início, a história, a vida do evento.

3. O senhor tem uma trajetória junto à Feira do Livro. Foi coordenador das primeiras feiras e participou ativamente de todas as edições. Com toda essa vivência, como hoje é ser o patrono da 46ª edição?

Quando convidado para patrono, diferentemente de fazer a ligação direta com a feira, o que me deixa honrado é ter cumprido a minha missão como professor. O professor e o livro têm uma relação estreitíssima. Se conseguirmos plantar em aula o costume da leitura, a feira cumpre o seu papel. Além da sala de aula, além do relacionamento entre professor e aluno, a feira é a implantação de algo que fica para as gerações de acadêmicos que a vivenciam. Essa é a recompensa que eu encontro, ter colaborado na elaboração de uma ideia e depois na concretização dela, uma ideia que está completando 40 anos de realização. Imagina quantos alunos passaram por essas feiras tendo livros de todas as áreas do conhecimento à disposição e em uma época em que Rio Grande tinha poucas livrarias. Ter colaborado com esse tipo de atividade é a recompensa que eu carrego e o orgulho que trago de ser o patrono desta edição.

4. A 46ª edição comemora os 50 anos da FURG e o senhor também está completando 50 anos de universidade, quais fatos o senhor gostaria de ressaltar nessa construção de conhecimento? 

O que a FURG nos deu como mensagem é a constatação de que a ousadia e a persistência fazem com que as coisas se concretizem. A FURG foi fruto dessa união. Não foi muito fácil concretizar a ideia de uma universidade em Rio Grande, naquela época. E dessa fase participei bastante, antes e depois. Durante a luta, eu era estudante secundário e integrante das entidades estudantis representativas, então lembro que a Prefeitura, CDL, Câmara do Comercio, Centro de Indústrias e todas as forças da cidade se juntaram para se ter uma universidade. Era um tempo complicado de se argumentar e solicitar uma universidade em Rio Grande já que Pelotas já possuía uma universidade federal e em um Estado que já possuía três universidades federais. Foram muitas passeatas de estudantes secundaristas, muitas idas a Brasília. O movimento foi tão forte que o ministro da Educação veio a Rio Grande. Também tivemos apoio de grupos fortes, como o caso da Ipiranga, no nome de Francisco Bastos, que foi responsável pela primeira Escola de Engenharia, sendo esse o primeiro curso superior da cidade. Também da Universidade Católica de Pelotas, no nome do Dom Antonio Zattera, que era bispo de Pelotas e reitor da universidade, a qual pertencia o curso de Direito e Filosofia que funcionavam em Rio Grande. O reitor da Católica abriu mão das duas unidades pagas, Direito e Filosofia, para que junto com a Medicina, Economia e Engenharia, escolas que já estavam instauradas aqui, dessem origem a nossa FURG. Enfim, a união que Rio Grande teve para criar a universidade teve como reflexo na história dessa [instituição] a força, a persistência e a ousadia durante o tempo todo.

5. De todas as Feiras do Livro que o senhor participou, qual delas marcou mais? Por quê? 

Sem dúvida a primeira Feira do Livro, pela dificuldade que foi realizá-la. Na época, em 1979, a FURG completava 10 anos e eu estava como superintendente de extensão. Minha missão era criar atividades extensionistas , a pedido do reitor Fernando Lopes Pedone, já que essa área era muito incipiente na universidade. Com isso, começamos a organizar uma programação, através da comissão de assessoramento da superintendência. Nos encontros surgiu a idéia de realizar uma Feira do Livro da FURG para a cidade. Mas isso não era tão fácil de operacionalizar na época, pois tínhamos a livraria do Globo, a Mundial, a Palotti e a Nossa Senhora de Fátima. Eram poucos estabelecimentos para fazer uma feira. Também não tínhamos barracas e nada de infra-estrutura. Lembro-me que houve muita resistência para a realização da feira, pois achavam que o evento não iria vingar, já que não era missão da universidade. Mas mesmo assim, o reitor acatou a ideia e então fui em busca de apoiadores. O primeiro passo foi visitar a Câmara Rio-Grandense do Livro, que realiza até hoje as Feiras do Livro de Porto Alegre. Mas, chegando lá, foi me explicado que a tentativa de realizar uma feira em Rio Grande, na década de 50, não deu certo e não iriam apostar na cidade novamente. Enfim, sem apoio da Câmara, a FURG fez suas próprias barracas, com auxilio de uma equipe formada pelos representantes da Sub-reitoria de Planejamento e Desenvolvimento, do Departamento de Biblioteconomia e História e do grupo da carpintaria da universidade. Com isso retornei a capital para fazer contatos com livreiros. Colocamos seis barracas, com livreiros locais e da capital, no largo Dr. Pio no dia 17 de agosto de 1979. Lembro-me do sucesso que foi.Já a segunda edição da Feira foi realizada no Cassino, em janeiro de 1980. Eram realizadas duas feiras do livro, uma no inverno e outra no verão, e essa forma seguiu até a 10ª edição, quando foi decidido realizá-la somente no verão.

6. Na sua visão, qual o senhor entende ser a principal função de um patrono? Qual contribuição pretende deixar nesta edição do evento?

A palavra patrono possui muitas acepções. O patrono é visto como pai. E nesta ocasião me vejo sendo patrono, nesta acepção, na acepção histórica da feira. Como alguém que teve a responsabilidade inicial de dar forma e corpo a ela. Levei a idéia adiante para que ela se concretizasse. Esse pertencimento a feira é natural para quem fez as primeiras edições. É como se estivesse acompanhando minha filha no seu quadragésimo aniversário.

 

Galeria

Péricles Gonçalves, patrono da 46ª Feira do Livro da FURG